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    August 09

    Aquilo que eu sei

    Aquilo que eu sei
     
    Eu sou besta eu sei que sou
    mas não sou mais o que não sou
    Mas eu sei que sou mais não dou
    Não te dou o que não dou

    Não tenho, não terei
    E se terei não darei
    Não te dei o que fechei
    Não ganhei e nem mandei

    Não mandei e nem abri
    Não sei nem o que não sei
    Eu só sei que eu não vou
    Eu só, eu sei que não te entreguei

    Só eu sei
    O quanto eu te amei
    O quanto eu te quiz
    O quanto eu te persegui
    Segui

    Só eu sei
    O quanto eu me acostumei
    Com sua linda cor e voz
    Com seu tom de luz e algoz

    Só eu sei o que te quiz
    Só eu sei e só eu posso
    Deixar de te querer
    Deixar de te sentir

    Deixar de me apaixonar
    Por ti
    Só eu
    Só eu posso

    Não queira você
    Dizer a mim
    que eu devo lhe esquecer
    Se só eu sei

    O quanto eu me acostumei
    O quanto eu te amei
    O quanto eu te quiz
    O quanto eu te persegui

    Só eu sei deixar de ouvir
    Só eu sei
    Eu não sei
    Não sei como te esquecer

    Não sei deixar de querer
    Não sei como não sentir
    Não emendar e nem fechar
    Não sei fechar o que abri

    Só eu sei o que você sabe
    Não esqueça o que eu não sei
    Saberá dizer pra mim
    Aquilo que eu sei e esquecerei

    Só tu tens a lembrança
    A lambança esquecerei
    Só tu tens em abundancia
    Aquilo em que me lambusei

    Guarde na lembrança
    A riqueza que esquecerei
    Um dia iremos nos apaixonar
    Ter filhos, envelhecer, voar

    No dia em que na terra voltar
    Aterrizar, dezaterrar o que aterrado está
    Voltar a lembrar, viver
    E nunca mais esquecer
     
    [Glum - 05 de Janeiro de 2009]

    Eu herói Seu

    Eu herói Seu

    Eu vou andar rápido
    Vou cantar, rolar, vibrar
    Vou mandar, vou ajudar
    Eu vou falar

    Beberei o barro
    Secarei as ruas
    Herói serei
    Sem dó, eu só

    Eu salvarei-te daquilo que te fez
    Molharei o barro para fazer o rei
    Verei a terra, pedra e algóz
    Serei eu a sua vóz
     
    [Glum - 05 de Janeiro de 2009]

    Nado

    Nado

    Deitado na beira da praia
    Te aguardava de braços fechados
    Pernas entreabertas
    Cabeça semi enclinada

    A esquerda passava a barca,
    o pescador lá no fundão
    e nas encostas do morro
    barrigadas de baleia faziam barulho

    - Melhor assim
    Dizia o casal
    que andava na calçada
    enquanto eu nadava

    Aguardava-te
    Imaginando-me eternamente ao seu lado,
    a nado
    nadava e nada

    Perdia a fé
    lançava-me imaginando seus pés
    beijava, voluntariamente implorava
    E nada. Você nadava e eu nado.
     
    [Glum - 18 de fevereiro de 2009]

    Agora

    Agora

    Sim, foi bom
    Bom enquanto ficou
    Bom que passou
    E bem renovou

    Bom que agora é bom
    Bom que não acabou
    Bom que deixa ir
    Bom, e daí

    Foi som
    Foi sol, lua, vento
    Foi o bom que ventou
    Ventou, levou

    O vento levou
    Que bom que ficou
    Bom que não foi
    Bom que chorou

    É bom a saúde que fica
    É bom a saudade que não vai
    É bom a lembrança que vem
    É bom a memória que traz

    O bom o vento levou
    O bom lá atraz ficou
    O sonho que se renovou
    É som, sol lua, ventou, levou

    Cabum, bom, trovão
    A chuva passou
    O bom que foi
    O bom deixou
     
    [Glum - 23 de Junho de 2009]

    Embalada

    Embalada

    Flecha certeira
    Acertou minha lembrança
    Rio de Janeiro
    Manda chuva pra secância

    Sei que leva minha vida
    Sei que chama minha sina
    Sei que guarda minha vida
    e vinde a mim, minha saudade

    Minha chama
    Vem chegando recebendo
    Tu és a minha cada sua casa
    minha vinda, e sua cabeça

    Vem capenga esticada no cubículo
    Nesta sala tenebrosa vida ciumenta
    Minha lembrança dolorida
    alogo a arena alongando santo amor

    Foi seu canto no meu canto
    tocou a minha chama
    Me chamou e encantou
    Foi embalado adoidado indagado

    A lembrança escusa que a vida tem
    São as águas da vida que você batizou
    Santo amor, foi encanto que caiu e ficou
    Quem encantou minha vida foi tu

    Foi tu que encantou
    Foi tu que cantou
    Mas quem embalou minha vida
    Foi a ira do amor
     
    [Glum - 09 de Agosto de 2009]

    Massa morta

     
    Massa morta
     
    Me conquistou na força
    Me bateu
    Amaçou salteou temperou
    me colocou na forma
     
    esqueceu do fermento
    fiquei dura
    não cresci
     
    massa morta
    então...
    me jogou fora
     
    ali na esquina
    encontrada...
    um mendigo me fez feliz
     
    [Glum - 07 de março de 2009]
    November 29

    Freud explica

    Freud explica

    Oi meu amor
    Me ajuda a fazer uma poesia
    De que tipo?
    Não sei

    Como que você vai escrever sem saber gatinho
    Não sei
    tem que ter o tema
    Porque tem que ter o tema?

    Então você pega uma palavra
    A primeira que vem na sua cabeça
    Ai dá um dadaismo
    Junta tudo e dá

    Como assim?
    Dadaismo gatinho
    Como assim?
    Ah não tenho nada mais para dizer não

    É assim que faço poesias
    As palavras vão saindo
    Acho que froid diz alguma coisa sobre isso
    Que você vai falando
    As coisas vão saindo da sua cabeça
    Você não tem o controle

    É muito rápido
    Falar
    Ah falar
    Falar é poesia

    Froid?
    Freud?
    Explica
    Freud Explica!


    [Glum - Li 29 de Novembro de 2008]
    January 19

    Será?

    Será?
     
    Uma vez eu fui num lugar
    qual o nome de um lugar?
    no trevo, conhece o trevo?
    Ordem orgânica espiritual
     
    Fiz uma consulta
    Um
    Uma vez eu fui
     
    Perguntei algo
    As três pessoas começaram a rir
    Vai sim, vai sim, disseram
    Será?
     
    [Glum - 19 janeiro 2008]
    December 27

    Dezembro de Jesus

    Dezembro de Jesus

    Dezembro
    Dez horas e vinte cinco minutos
    Aos vinte cinco dias
    Agora, vinte e seis minutos

    Jesus chega no trabalho já querendo ir embora
    Agora, coragem
    Na solitaria sala de cem metros quadrados
    a hora é de esperar

    esperar a hora passar
    passou, agora apenas mais dois
    dois minutos na vida de uma pessoa
    em uma sala de cem metros quadrados

    (Glum - 27 de dezembro de 2007)

    October 18

    Chão de outono

    Chão de outono

    As folhas das árvores secas
    caiam no verão
    era chão de outono

    [Glum - 18 de outubro de 2007]

    Dois seres

    Dois seres

    É gosto só amar
    Gostos de prazer
    Gostos de valor
    Gostos, dois rostos

    Dois corpos
    Dois amos
    Damo e dama
    Dois gostos

    Dois copos
    Dois donos
    Gostos, o de fazer
    Gostos, o de calor

    Dois seres
    sereia
    serei
    ser

    [Glum - 18 de outubro de 2007]

    A sua agenda

    A sua agenda

    A sua agenda
    Não é minha agenda
    A sua vida
    Não é minha vida

    A sua ida
    Não é minha ida
    A sua vinda
    Não é minha chegada

    Não é minha alça
    Minha mala
    Meia calça
    Não minha porca alma

    Abre a porta
    Deixa entrar
    Deixa eu ir
    Deixa eu pensar

    A sua não é minha
    A minha não é sua
    Dai-me a sua liberdade
    Que eu te dou a minha idade

    Minha velha vida
    Depenada, encrostada
    Minha velha alma
    Submersa, realçada

    Sai da minha casa
    Não meu
    Não teu
    Sai da minha alça

    Minha sua mole crua
    Cai de monte encrua
    Vai ao conde e turva
    Sai daqui, pra sua turma

    [Glum - 18 de outubro de 2007]
    September 18

    Cheiro de pé

    Cheiro de pé

    Cheiro de pé
    Comida do pé
    Fruta lambida
    Carne crua na comida

    Cheiro de mão
    Arroz com feijão
    Batata no pão
    Solidão

    [Glum - 18 Setembro 2007]

    Se eu for Deus

    Se eu for Deus

    Se eu for Deus
    Maria é uma anja
    Ângela uma canja
    Mariângela arcanja

    Se eu for seu
    Maria, uma filha
    Ângela, sobrinha
    Mariângela, do Abreu

    Eu não sou Deus
    Mariângela, não é de Abreu
    Ângela, nem da família
    Maria, a empregada vizinha

    Galinha na canja
    Maria a anja
    Mariangela arcanja
    E eu... Adeus

    [Glum - 18 de Setembro 2007]
    September 15

    Ciúme

    Ciúme

    Foi ciúme sim
    Grave, vil
    Você viu
    Pois vi!

    Eu sim.
    Fingi clareza,
    passei,
    ignorei certeza.

    Visse.
    Me seguei.
    você...

    Por beleza
    passei fome,
    duvidei da fé,
    esqueci a cor.

    Mandei flor,
    passei dor.
    Ferido, que seja.

    Feria!
    A cor que fosse,
    que aceitasse.
    Eu aceito.

    Perfeito,
    bem feito,
    por medo eu feri.

    Dô, que não dói
    Dor que não fiz
    doí e a dor dei
    deitei

    [Glum - 15 Setembro 2007]

    Súbita

    Súbita

    perdi a dor
    perdi a cor
    a idade
    a vontade

    beldades
    verdades

    fiz alarde
    fiquei a vontade

    alegrei a tarde
    virei frade

    fui tarde

    [Glum - 15 Setembro 2007]

    Faz tempo

    Faz tempo

    Faz um tempo que não escrevo
    Faz um tempo que não brilho
    Faz um tempo que não crio
    Faz um tempo que não vivo

    Faz bastante tempo que não vô
    Faz muito tempo que não vôo
    Faz aquele tempo que não sou
    Faz um tempo que não tou

    Faz um dia que não creio
    Não ligo a pia
    Não me lavo
    Não bebo
    Nem noto que estou cheio

    Não como
    Não durmo
    Não choro
    Não mexo

    Faz um mês
    Faz Três
    Nem sei
    Faz tempo...

    [Glum - 15 setembro 2007]
    June 27

    Poema em linha reta (original)

    EIIII... para aqueles que se interessarem, desta vez eu vou publicar também a versão original

    Poema em linha recta

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
    Para fora da possiblidade do soco;
    Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
    Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
    Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
    Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó princípes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde há gente no mundo?

    Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

    (Álvaro de Campos)

    Poema em linha reta

    EEEEEEE Fernando Pessoa  ------ para quebrar um pouco a rotina :) --------------------------- Poema em linha reta ---------------------->

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

    (Álvaro de Campos)


    May 22

    Amar calado

     
    Amar calado
     
    Amor
    é só amor
    tão só
    que nada dá
     
    apenas dó
    desilusão
    paixão
    Amar
     
    é só amar
    tão só
    que nada dá
    apenas dá
     
    desiludir
    implodir
    Parar
    É só pensar
     
    nada pra dar
    nada pra pensar
    desenhar, desdenhar
    pensar
     
    Ah sim...
    pra que amar?
    pra ter... o que falar
    Sorrir. Só rir.
     
    [Glum - 22 de maio de 2007]